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Base ampla de Lula exige voto nominal em todas as votações

Reeleito, Lula terá de montar base em Congresso mais à direita. Na Câmara, dois terços das votações de 2025 foram simbólicas, sem voto individual.

Texto de Tribuna: a análise e as conclusões pertencem a quem assina, não necessariamente ao Jornal Vigília.

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Deputada discursa ao microfone no Plenário do Congresso Nacional, com o painel de votação ao fundo.
Arquivo: Deputada Marília Arraes (PT-PE) fala no Plenário durante sessão do Congresso Nacional para deliberar sobre vetos, em Brasília, em 10 de março de 2022.Foto: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

No domingo (25), Lula foi reeleito para um quarto mandato. Com 100% das urnas apuradas, ele teve 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL), segundo a CNN Brasil.

Agora começa a parte difícil. Lula precisa de uma base no Congresso, formada também por partidos que nem sempre votam com o governo. Este texto defende uma tese: essa base só se mede pelo voto nominal, em que o nome de cada parlamentar aparece no placar.

Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados. Os partidos de esquerda elegeram 124, segundo o Diário do Grande ABC. Para governar, Lula terá de negociar com o Centrão, bloco de partidos de centro e centro-direita. Nas palavras do cientista político Carlos Ranulfo, o Centrão “continua sendo a força predominante”.

A Gazeta do Povo lembra que, sem maioria própria, Lula “deverá recorrer à negociação com partidos do Centrão”. A reportagem cita o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) entre os partidos “frequentemente incluídos no Centrão”.

Quem vota sem deixar rastro

Na votação simbólica, o plenário decide sem que cada voto seja registrado. O guia para jornalistas da Câmara diz que, nesse modo, “os votos individuais não são computados eletronicamente”. Qualquer deputado pode pedir verificação, e nesse caso a votação é nominal.

Os números mostram o tamanho do problema. Segundo a Folha de S.Paulo, obtida pela Lei de Acesso à Informação, a Câmara teve 420 votações simbólicas e 215 nominais em 2025. Em 2024, foram 369 simbólicas e 150 nominais.

Ou seja: em 2025, cerca de dois terços das votações da Câmara (66%) não mostraram como cada deputado votou. No Senado, a proporção foi de 83%, com 126 votações simbólicas e 25 nominais no mesmo ano.

Os partidos costumam indicar à bancada como votar. Essa orientação é um aviso, não um voto. Quem vê “o partido votou a favor” não sabe quem seguiu a orientação e quem ficou de fora.

A Constituição mostra por que o número importa. Uma emenda à Constituição precisa de “três quintos dos votos dos respectivos membros” em cada turno, segundo o artigo 60, parágrafo 2º. Na Câmara, isso são 308 votos. Para comprovar esse placar, cada voto precisa ser contado.

O argumento contrário

A objeção merece resposta. A Folha registra o argumento do Congresso de que o formato “acelera a tramitação”. Em projetos sem divergência, a rapidez faz sentido, e ninguém precisa gastar uma sessão inteira com um texto que todos aprovam.

Mas a pressa tem um preço. Maria Vitória Ramos, cofundadora do Fiquem Sabendo, afirma que o modelo serve para “acelerar tramitações e dificultar a responsabilização individual dos parlamentares perante a sociedade”.

O Senado respondeu à Folha que “segue a regra prevista na Constituição e no regimento interno”. Disse também que o processo, a lista de presença e a ata ficam disponíveis na internet. Isso registra a sessão, mas não mostra como cada senador votou.

A rapidez não justifica o silêncio do placar. O sistema eletrônico já registra o voto de cada deputado quando a votação é nominal, como explica o guia da Câmara. O custo do modelo atual recai sobre o eleitor, que não consegue cobrar quem apoiou o quê.

O que diz a Câmara: Segundo a Folha, a assessoria da Câmara não respondeu aos contatos da reportagem, em maio de 2026. No guia para jornalistas, a Casa diz que a votação simbólica é “adotada na maioria das propostas”.

O que isso significa

Lula disse que não escolheu o Congresso. “Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar”, afirmou, segundo o Diário do Grande ABC.

Se o Congresso é escolhido pelo povo, o povo precisa ver quem vota com quem. Uma base ampla deveria aparecer no placar, deputado por deputado. Declarações de partidos e acordos de líderes não bastam para isso.

Quem quer governar com um Congresso mais à direita terá de aceitar a conta do voto nominal. Sem ele, a base vira uma promessa que ninguém consegue conferir.

Como fizemos: Usamos o resultado da eleição divulgado pela CNN Brasil em 26/10/2026, e as reportagens do Diário do Grande ABC e da Gazeta do Povo de 25/10/2026 e 27/10/2026, acessadas em 27/10/2026. Os totais de votações simbólicas e nominais de 2024 e 2025 vêm do levantamento da Folha de S.Paulo, obtido pela Lei de Acesso à Informação e republicado pelo O Hoje e pelo ICL Notícias. Não conferimos esses totais no portal da Câmara. Os percentuais são nossos cálculos: 420 de 635 (66%) na Câmara em 2025, 369 de 519 (71%) em 2024 e 126 de 151 (83%) no Senado em 2025. O número 308 é nosso cálculo: três quintos de 513 deputados, arredondado para cima. Os dados não mostram quantas votações simbólicas tinham acordo entre as lideranças.

Fontes