TribunaAnálise assinada

A bolsa não mede legitimidade: 124 milhões de votos decidem a eleição

A queda da B3 após a reeleição de Lula mede expectativas sobre o risco fiscal. Quem decide a eleição são os votos válidos, não a cotação.

Texto de Tribuna: a análise e as conclusões pertencem a quem assina, não necessariamente ao Jornal Vigília.

Publicado em

Leitura5 min de leitura

Fotografia em preto e branco de um pregão de bolsa, com corretores de terno em volta de um recinto circular de negociação.
Vista interna de um pregão de bolsa, com corretores reunidos em volta do recinto de negociação. Data não informada no acervo.Foto: Werner Haberkorn / Museu Paulista da USP / Wikimedia Commons (domínio público)

Tribuna. Texto de opinião, sem assinatura individual.

Na segunda-feira (26), o Ibovespa caiu 13,88% e fechou aos 176.608,23 pontos. O dólar à vista subiu 8,21%, para R$ 5,4029, segundo o Bom Dia Mercado. A queda veio um dia depois da reeleição de Lula, que teve 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

A tese deste texto é simples. A bolsa mostra o humor de quem negocia ações. Ela não mostra quem tem legitimidade para governar. Uma eleição se decide pelos votos contados nas urnas, e essa conta não depende da cotação de nenhum papel.

Com 99,99% das urnas apuradas, segundo o TSE, o resultado somou cerca de 124 milhões de votos válidos. A diferença foi de 4,43 milhões de votos. Quem ganhou, ganhou nas urnas, e foi isso que a Justiça Eleitoral registrou.

O Ibovespa é o índice que reúne as ações mais negociadas da B3, a bolsa de valores do país. Por volta das 10h05, a B3 acionou o circuit breaker, pausa automática de negociação, quando a queda chegou a 10%, segundo o InfoMoney.

Quem negocia na bolsa e quem vota no orçamento

Segundo a própria B3, 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas investiam em renda variável no segundo trimestre de 2026. CPF é o número de cadastro de cada pessoa. Renda variável é a aplicação cujo valor sobe e desce, como ações e fundos.

O IBGE estima que o país tinha 214,2 milhões de habitantes em 2026. Pela nossa conta, os investidores pessoa física equivalem a cerca de 2,7% da população. Além disso, estrangeiros detinham 40,4% do free float, a parte das ações que circula livremente no mercado, em junho de 2026, segundo o Itaú BBA.

O que diz a B3: Em publicação no próprio site, a empresa informa que a base “passou de 5,5 milhões de CPFs em dezembro de 2025 para 5,7 milhões no segundo trimestre de 2026”. A participação sobre a população é nosso cálculo, não da B3.

Do lado do trabalho, o quadro é outro. A PNAD Contínua, do IBGE, registrou desemprego de 5,3% no trimestre de junho a agosto de 2026. O rendimento médio real, ou seja, a renda descontada a inflação, foi de R$ 3.777, alta de 3,7%. Há 103,5 milhões de ocupados, recorde da série. Pela nossa conta, são cerca de 18 pessoas ocupadas para cada investidor pessoa física na bolsa.

O orçamento segue outro caminho. O governo enviou o projeto da Lei Orçamentária Anual de 2027 ao Congresso em 31 de agosto. Segundo a Agência Senado, o texto “será examinado inicialmente pela Comissão Mista de Orçamento (CMO)”. Depois, “a matéria será apreciada pelo Congresso Nacional”.

Quem decide quanto vai para saúde, educação e salário mínimo são deputados e senadores, em votações registradas. Ter ações não dá voto no orçamento. Soberania, nesse caso, é a decisão sobre o dinheiro público tomada por representantes eleitos, à vista de quem os elegeu.

O que o preço mede, e o que não mede

O mercado não é irrelevante, e seria desonesto dizer o contrário. Os preços carregam informação sobre risco fiscal, ou seja, sobre a chance de o governo não fechar as contas. O economista Roberto Simioni, da Blue3 Investimentos, disse: “A vitória de Lula tem como desafio manter a credibilidade fiscal em um Legislativo adverso”, segundo o InfoMoney.

Analistas citados pelo InfoMoney ligaram a queda ao resultado de formas diferentes. Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, disse: “Vai ser um dia difícil. O mercado vai reavaliar tudo.” William Jackson, da Capital Economics, avaliou que a vitória vai frustrar expectativas de reformas que melhorariam as contas públicas.

Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, afirmou que o mercado reprecifica “dois riscos”, o fiscal e o institucional. O segundo, segundo ele, está ligado a controvérsias sobre o processo eleitoral. Se parte dos investidores precifica dúvidas sobre a eleição, essas dúvidas se resolvem nas instituições, como o TSE e o Congresso. A cotação registra o medo, mas não confirma nem anula um voto.

A queda também atinge quem não tem ação. Dólar mais alto encarece produtos importados. Juros futuros mais altos elevam o custo da dívida pública que o governo precisa rolar. Fundos de previdência complementar, que guardam a poupança de trabalhadores, também aplicam em bolsa. Esses efeitos são reais e merecem debate sério. O que não se sustenta é usar a cotação como veredito sobre quem ganhou a eleição.

O que está em aberto é o orçamento. O governo precisa mostrar como cumpre os pisos da saúde e da educação e o salário mínimo. O Congresso precisa votar com o nome de cada parlamentar à vista. A cotação vai continuar medindo expectativas, e vale acompanhá-la. A eleição, porém, já tem resposta, e ela foi dada pelo voto.

Esta coluna não recomenda comprar nem vender nenhum ativo. Ações podem perder valor, e uma queda pode se aprofundar.

Como fizemos: Usamos o fechamento de 26/10/2026 do Ibovespa e do dólar, segundo o Bom Dia Mercado, a BPMoney e o InfoMoney; a apuração do TSE divulgada pelo InfoMoney e pela Bloomberg Línea, com 99,99% das urnas apuradas (o site do TSE não abriu na nossa consulta); os dados da B3 sobre o segundo trimestre de 2026; a estimativa de população do IBGE para 1º de julho de 2026; a PNAD Contínua do trimestre até agosto de 2026, divulgada pelo IBGE em 29/09/2026; e o levantamento do Itaú BBA citado pela Forbes, com dados de junho de 2026. Todos foram acessados em 26/10/2026. Nossos cálculos: 5,7 milhões dividido por 214,2 milhões (cerca de 2,7%); 103,5 milhões dividido por 5,7 milhões (cerca de 18); e a diferença de votos. Não conseguimos o boletim original do Itaú BBA; o número de 40,4% vem de duas reportagens. Os dados de mercado são de um único pregão e podem ser revistos.

Fontes