Mercado não é economia: desemprego cai a 5,3% e renda real sobe 3,7%

Desemprego de 5,3% e renda real em alta de 3,7%, segundo o IBGE, mostram uma economia do trabalho que não depende dos humores da Bolsa.

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Fachada de pedra da sede da B3 com três arcos de entrada, portões de ferro e a placa Bovespa, em São Paulo.
Entrada da sede da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, na região central da capital paulista.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Em 29 de setembro, o Ibovespa fechou aos 183.827,59 pontos e acumulava alta de 14,09% em 2026, segundo o Canal Rural. O Ibovespa é o principal índice da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, e reúne as ações mais negociadas do país. No mesmo dia, o IBGE informou que o desemprego caiu para 5,3%.

Os dois indicadores melhoraram neste ano, mas medem coisas diferentes. O Ibovespa sobe e cai com juros, lucros de empresas e apostas de investidores. Os números de emprego e renda mostram o que acontece com quem trabalha.

Em 2025, a Bolsa subiu 33,95%, o maior ganho anual desde 2016, segundo o Poder360. No mesmo ano, a taxa média de desemprego caiu de 6,6% em 2024 para 5,6%, segundo o JB. Os dois movimentos ocorreram ao mesmo tempo, mas um não explica o outro.

O que os dados do trabalho mostram

A PNAD Contínua é a pesquisa do IBGE que mede o trabalho nas casas. No trimestre até agosto, a taxa de desocupação ficou em 5,3%. É a menor para o período desde 2012, início da série, segundo o Mercado & Consumo. Havia 103,5 milhões de pessoas ocupadas.

A renda também subiu. O rendimento médio real, já descontada a inflação, foi de R$ 3.777. A alta foi de 3,7% ante o mesmo período de 2025, segundo a Acessa. A massa de renda, o total pago em salários, chegou a R$ 385,6 bilhões, com alta de 4,8%. O salário mínimo subiu para R$ 1.621, R$ 103 acima do valor de 2025.

O Caged registra as carteiras assinadas no Ministério do Trabalho e Emprego. Em agosto, o saldo foi de 165.827 vagas formais, ou seja, contratações menos demissões. De janeiro a agosto, foram 1.134.033 vagas, queda de 25,2% ante 2025, segundo o DGABC.

Onde a economia desacelera

A Selic é a taxa básica de juros do país, definida pelo Copom, comitê do Banco Central. Em 16 de setembro, o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, segundo o Atlas Público. Juros ainda altos encarecem crédito e dívidas.

O PIB, a soma de tudo o que o país produz, subiu 0,5% no 2º trimestre ante o 1º, descontados os efeitos sazonais. Frente ao mesmo trimestre de 2025, a alta foi de 2,0%, segundo a Agência Gov. O consumo das famílias, porém, caiu 0,4% no trimestre.

Outros dados pesam contra a leitura otimista. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58% em setembro, acima do teto da meta de 4,5%, segundo a Rankia. O comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 28,9% em junho, a maior marca da série do Banco Central iniciada em 2011, segundo o SBT News.

Informalidade e contas públicas também pesam. No primeiro trimestre, 37,3% dos ocupados estavam na informalidade, sem registro formal, segundo a Agência Brasil. No governo central, o déficit primário, que exclui juros da dívida, somou R$ 68,7 bilhões em 12 meses até agosto, ou 0,53% do PIB, segundo o Jornal do Comércio. A meta deste ano é um superávit de 0,25% do PIB.

Antes da eleição, a Bolsa também subia em outubro. Em 9 de outubro, o Ibovespa superou 209 mil pontos, segundo o Investidor10. Esse preço das empresas listadas na B3 não mede salário, emprego nem consumo.

Renda e emprego melhoram, mas juros, dívidas e déficit seguem altos Último dado divulgado até 26/10/2026, com período de referência

Indicador Valor Período de referência
Taxa de desocupação (IBGE) 5,3% Trimestre até agosto de 2026
Rendimento médio real R$ 3.777 Trimestre até agosto de 2026
Vagas formais líquidas (Caged) 165.827 Agosto de 2026
Vagas formais no ano (Caged) 1.134.033 Janeiro a agosto de 2026
PIB +0,5% 2º trimestre de 2026 ante o 1º
Selic 13,75% ao ano Desde 16/09/2026
Ibovespa 183.827,59 pontos Fechamento de 29/09/2026
Salário mínimo R$ 1.621 Desde 1º/01/2026

Fonte: IBGE, Ministério do Trabalho e Emprego, Banco Central, Tesouro Nacional e B3, por meio das reportagens citadas no texto. Elaboração: redação.

O que diz o Banco Central: Segundo resumo do comunicado do Copom de 16 de setembro, a atividade segue em moderação gradual, mas resiliente, com mercado de trabalho aquecido. A inflação e o núcleo desaceleraram, mas seguem acima da meta (Economic News Brasil).

O que fica em aberto

Os dados mostram renda real em alta e desemprego baixo. A atividade perde ritmo, e as dívidas das famílias estão no maior nível da série. Os números sustentam uma conclusão: o pregão da B3 não mede sozinho a economia que chega ao bolso de quem trabalha.

Ainda não encontramos o Caged de setembro. A próxima decisão da Selic também não foi tomada. Investimentos em ações podem perder valor, e quedas no mercado podem se aprofundar. Esta reportagem não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos reportagens e agências que citam o IBGE (PNAD Contínua, PIB e inflação), o Ministério do Trabalho e Emprego (Caged), o Banco Central (Selic e endividamento), o Tesouro Nacional (contas do governo) e a B3 (Ibovespa), acessadas em 26/10/2026. Não conseguimos abrir os sites oficiais do IBGE e do Banco Central, então não conferimos os valores direto na fonte. Não fizemos cálculos próprios. Há divergências: uma fonte dá 4,57% para a inflação de 12 meses, e o endividamento de 28,9% aparece como de junho em uma reportagem e de maio (28,5%) em outra. Não usamos o pregão de 26/10, que não confirmamos.

Fontes