Em 2002, o dólar subiu 52% com o mercado temendo Lula
Em 2002, o dólar subiu 52% e a bolsa caiu 17% com o receio de uma vitória de Lula; em 2003, o Ibovespa subiu 97%, por causas que se somaram.

Em 22 de outubro de 2002, a taxa de venda do dólar, calculada pelo Banco Central (BC), chegou a R$ 3,9552. No início do ano, a moeda valia R$ 2,3204. A alta coincidiu com o receio do mercado de uma vitória de Lula, que venceu a eleição presidencial naquele mês, segundo a Fundação Perseu Abramo.
A bolsa também caiu, e o governo fechou um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O que veio depois mostra que o pânico não durou.
O contexto de 2002
Em 22 de junho, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. Segundo o Congresso em Foco, o texto era dirigido ao povo, mas voltado ao mercado. Nele, Lula escreveu: “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário”. Superávit primário é a sobra do governo antes de pagar juros da dívida.
Em agosto, o governo fechou com o FMI um acordo de cerca de US$ 30 bilhões, segundo a carta de intenção de 29 de agosto de 2002. Cerca de 80% desses recursos tinham data de liberação em 2003.
O ano do pânico
O risco-país, medido pelo banco JP Morgan, mostra quanto o Brasil paga a mais que os Estados Unidos para tomar empréstimos. Cem pontos-base equivalem a 1 ponto percentual. O recorde de alta foi de 2.436 pontos, em 27 de setembro de 2002, segundo o Congresso em Foco.
Em 2002 inteiro, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), caiu 17,01%. O dólar subiu 52,3%, de R$ 2,3204 para R$ 3,5333 no fim do ano. Os números coincidem com o receio de uma virada, mas não provam sua causa.
O que veio depois
Em 2003, o Ibovespa subiu 97,34%. O dólar caiu 18,2%, para R$ 2,8892 no fim do ano. O risco-país fechou o ano em 468 pontos, segundo a Cemig.
O Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic, a taxa básica de juros, de 25% para 26,5% ao ano entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003, segundo o anexo da LDO de 2005. Em dezembro de 2003, ela estava em 16,5%, segundo a Agência Brasil.
Fatores globais também pesaram. Os fluxos privados para países emergentes subiram de US$ 124 bilhões em 2002 para US$ 188 bilhões em 2003, segundo o Real Instituto Elcano.
Ibovespa, dólar e risco-país em 2002 e 2003 Variação do Ibovespa no ano; dólar e risco-país no fim de cada ano
| Ano | Ibovespa | Dólar (R$) | Risco-país (pontos) |
|---|---|---|---|
| 2002 | −17,01% | 3,5333 | 1.379¹ |
| 2003 | +97,34% | 2,8892 | 468 |
Fontes: Mais Retorno (Ibovespa); Banco Central, série PTAX de venda (dólar); Cemig, relatório de 2003 (risco-país). Elaboração: redação. ¹ Valor do início de 2003, segundo a Cemig. Outras análises citam 1.446 pontos no fim de 2002.
Os dados não provam que o mercado errou em 2002. Também não mostram que Lula, sozinho, causou a alta de 2003. Juros, metas fiscais e o ciclo global de capitais se somaram. Correlação não é causa, e esse histórico não serve de previsão.
O que acontece agora
Em 26 de outubro de 2026, depois do segundo turno em que Lula venceu Flávio Bolsonaro, o Ibovespa fechou em 176.608,23 pontos, queda de 13,88%. O dólar à vista fechou em R$ 5,4029, alta de 8,21%, segundo a Money Times. A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações, pela primeira vez desde 2020, segundo a CNN Brasil.
Em um só dia, a bolsa perdeu 13,88%. Em todo o ano de 2002, a perda foi de 17,01%. As circunstâncias são outras, e a comparação tem limites.
Analistas leem o momento de forma diferente. Silvio Cascione, da Eurasia Group, avalia que Lula começa o quarto mandato com mais força, segundo o Money Times. Rebecca Nossig, da Nomad, falou em descompasso entre as expectativas do mercado e o resultado das urnas, segundo a CNN Brasil.
O que diz a Carta ao Povo Brasileiro, de Lula (22/6/2002): o texto diz que a transição econômica tem como premissa o “respeito aos contratos e obrigações do país”. A íntegra foi publicada pelo Congresso em Foco, em 2017.
O que os números de 2002 e 2003 mostram é que o medo de uma eleição pesou sobre os preços, e que a recuperação veio depois, com outras forças em jogo. Isso não garante nada para agora. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.
Como fizemos: Usamos a série de taxa de venda do dólar (PTAX) do Banco Central, acessada em 26/10/2026, para os fechamentos de 31/12/2001, 31/12/2002 e 31/12/2003 e para o pico de 22/10/2002. Calculamos as variações do dólar (+52,3% em 2002 e −18,2% em 2003) e a participação de 80% dos recursos do FMI em 2003, pelas datas do documento. O Ibovespa vem do Mais Retorno; o risco-país é citado em pontos pontuais, sem série diária. Os fechamentos de 26/10/2026 vêm da Money Times (dólar com alta de 8,21%; a CNN Brasil dá 8,36%), não do boletim oficial da B3.
Fontes
- Lula quer fazer nova carta aos brasileiros; veja a íntegra da primeira — Congresso em Foco
- Após novo PIB, risco Brasil cai ao seu menor índice — Congresso em Foco (2007)
- Em outubro de 2002 o primeiro trabalhador da história era eleito presidente do Brasil — Fundação Perseu Abramo
- Carta de intenção do Brasil ao FMI, 29 de agosto de 2002 — FMI
- Série 1 do SGS, dólar (venda), set/2002 a dez/2002 — Banco Central (acesso em 26/10/2026)
- Série 1 do SGS, dólar (venda), dez/2003 a dez/2004 — Banco Central (acesso em 26/10/2026)
- Rentabilidade anual do Ibovespa — Mais Retorno (acesso em 26/10/2026)
- Relatório anual 2003 — Cemig
- Anexo à Mensagem do PL da LDO 2005 — Câmara dos Deputados
- Copom mantém juros em 16,5% — Agência Brasil (18/2/2004)
- La economía de Brasil en el primer año de Lula (2ª parte) — Real Instituto Elcano
- Tempo real: Ibovespa afunda 13% com vitória de Lula — Money Times (26/10/2026)
- Dólar sobe 8% e Bolsa tem maior queda desde a pandemia após vitória de Lula — CNN Brasil (26/10/2026)
