Em 2002, o dólar subiu 52% com o mercado temendo Lula

Em 2002, o dólar subiu 52% e a bolsa caiu 17% com o receio de uma vitória de Lula; em 2003, o Ibovespa subiu 97%, por causas que se somaram.

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Operadores sentados de costas diante de painéis de cotações eletrônicos no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
Operadores diante dos painéis de cotações do pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de abril de 2007 (imagem de arquivo).Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 22 de outubro de 2002, a taxa de venda do dólar, calculada pelo Banco Central (BC), chegou a R$ 3,9552. No início do ano, a moeda valia R$ 2,3204. A alta coincidiu com o receio do mercado de uma vitória de Lula, que venceu a eleição presidencial naquele mês, segundo a Fundação Perseu Abramo.

A bolsa também caiu, e o governo fechou um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O que veio depois mostra que o pânico não durou.

O contexto de 2002

Em 22 de junho, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. Segundo o Congresso em Foco, o texto era dirigido ao povo, mas voltado ao mercado. Nele, Lula escreveu: “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário”. Superávit primário é a sobra do governo antes de pagar juros da dívida.

Em agosto, o governo fechou com o FMI um acordo de cerca de US$ 30 bilhões, segundo a carta de intenção de 29 de agosto de 2002. Cerca de 80% desses recursos tinham data de liberação em 2003.

O ano do pânico

O risco-país, medido pelo banco JP Morgan, mostra quanto o Brasil paga a mais que os Estados Unidos para tomar empréstimos. Cem pontos-base equivalem a 1 ponto percentual. O recorde de alta foi de 2.436 pontos, em 27 de setembro de 2002, segundo o Congresso em Foco.

Em 2002 inteiro, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), caiu 17,01%. O dólar subiu 52,3%, de R$ 2,3204 para R$ 3,5333 no fim do ano. Os números coincidem com o receio de uma virada, mas não provam sua causa.

O que veio depois

Em 2003, o Ibovespa subiu 97,34%. O dólar caiu 18,2%, para R$ 2,8892 no fim do ano. O risco-país fechou o ano em 468 pontos, segundo a Cemig.

O Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic, a taxa básica de juros, de 25% para 26,5% ao ano entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003, segundo o anexo da LDO de 2005. Em dezembro de 2003, ela estava em 16,5%, segundo a Agência Brasil.

Fatores globais também pesaram. Os fluxos privados para países emergentes subiram de US$ 124 bilhões em 2002 para US$ 188 bilhões em 2003, segundo o Real Instituto Elcano.

Ibovespa, dólar e risco-país em 2002 e 2003 Variação do Ibovespa no ano; dólar e risco-país no fim de cada ano

Ano Ibovespa Dólar (R$) Risco-país (pontos)
2002 −17,01% 3,5333 1.379¹
2003 +97,34% 2,8892 468

Fontes: Mais Retorno (Ibovespa); Banco Central, série PTAX de venda (dólar); Cemig, relatório de 2003 (risco-país). Elaboração: redação. ¹ Valor do início de 2003, segundo a Cemig. Outras análises citam 1.446 pontos no fim de 2002.

Os dados não provam que o mercado errou em 2002. Também não mostram que Lula, sozinho, causou a alta de 2003. Juros, metas fiscais e o ciclo global de capitais se somaram. Correlação não é causa, e esse histórico não serve de previsão.

O que acontece agora

Em 26 de outubro de 2026, depois do segundo turno em que Lula venceu Flávio Bolsonaro, o Ibovespa fechou em 176.608,23 pontos, queda de 13,88%. O dólar à vista fechou em R$ 5,4029, alta de 8,21%, segundo a Money Times. A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações, pela primeira vez desde 2020, segundo a CNN Brasil.

Em um só dia, a bolsa perdeu 13,88%. Em todo o ano de 2002, a perda foi de 17,01%. As circunstâncias são outras, e a comparação tem limites.

Analistas leem o momento de forma diferente. Silvio Cascione, da Eurasia Group, avalia que Lula começa o quarto mandato com mais força, segundo o Money Times. Rebecca Nossig, da Nomad, falou em descompasso entre as expectativas do mercado e o resultado das urnas, segundo a CNN Brasil.

O que diz a Carta ao Povo Brasileiro, de Lula (22/6/2002): o texto diz que a transição econômica tem como premissa o “respeito aos contratos e obrigações do país”. A íntegra foi publicada pelo Congresso em Foco, em 2017.

O que os números de 2002 e 2003 mostram é que o medo de uma eleição pesou sobre os preços, e que a recuperação veio depois, com outras forças em jogo. Isso não garante nada para agora. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.

Como fizemos: Usamos a série de taxa de venda do dólar (PTAX) do Banco Central, acessada em 26/10/2026, para os fechamentos de 31/12/2001, 31/12/2002 e 31/12/2003 e para o pico de 22/10/2002. Calculamos as variações do dólar (+52,3% em 2002 e −18,2% em 2003) e a participação de 80% dos recursos do FMI em 2003, pelas datas do documento. O Ibovespa vem do Mais Retorno; o risco-país é citado em pontos pontuais, sem série diária. Os fechamentos de 26/10/2026 vêm da Money Times (dólar com alta de 8,21%; a CNN Brasil dá 8,36%), não do boletim oficial da B3.

Fontes