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Educação financeira pública protege quem fica fora da bolsa

Defendemos que a educação financeira pública, nas escolas e no serviço público, é o antídoto para o pânico e a euforia nas bolsas.

Texto de Tribuna: a análise e as conclusões pertencem a quem assina, não necessariamente ao Jornal Vigília.

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Torre de vidro escuro do edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, com céu claro ao fundo.
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília. Foto de 2010, recortada no formato paisagem.Foto: Banco Central do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na segunda-feira (26), às 10h05, a B3 acionou o circuit breaker, o freio automático que suspende os negócios quando o Ibovespa cai com força. A sinalização era de queda de 10% em relação ao fechamento anterior. Segundo a InfoMoney, a queda ocorreu na reação ao resultado do segundo turno da eleição presidencial.

Este texto não recomenda nenhum ativo. Ele trata de uma pergunta mais antiga: quem está preparado para decidir quando o pânico ou a euforia chega?

Nossa resposta é direta. A educação financeira pública é o antídoto contra a venda em pânico e contra a compra eufórica. Também é uma questão de serviço público e de direitos do trabalhador.

O Decreto 10.393, de 9 de junho de 2020, criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Ela promove a educação financeira, a securitária (sobre seguros), a previdenciária (sobre aposentadoria) e a fiscal (sobre impostos). O Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais, e o Ministério da Educação integram o Fórum Brasileiro de Educação Financeira.

O tema já consta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desde 2017. Agora o Congresso quer levá-lo à lei. O PL 2.979/2023, da deputada Any Ortiz, inclui o tema na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). O Senado aprovou o texto em 15 de julho de 2026. Como foi alterado, ele voltou à Câmara dos Deputados.

Quem está na bolsa e quem está no limite

Segundo o boletim da B3, citado pelo Let’s Money, 5,7 milhões de CPFs investiam em renda variável no segundo trimestre de 2026. Renda variável é o investimento cujo valor muda todo dia e pode cair. O boletim foi divulgado em 18 de setembro.

Isso é menos de 3% dos brasileiros. O país tem mais de 200 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. A proporção é nossa conta.

Do outro lado, a dívida atinge a maioria das famílias. Segundo o Banco Central, a parcela da renda comprometida com dívidas chegou a 28,9% em junho de 2026. É o maior nível da série iniciada em março de 2011.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra o mesmo quadro. Em julho, 82% das famílias tinham dívidas. Entre as que ganham até três salários mínimos, o índice foi de 84,9%.

Os números não se comparam diretamente, mas mostram a escala. A bolsa reúne uma minoria pequena. O endividamento alcança a maioria. Quem mais precisa de orientação sobre crédito não está no pregão.

O que a evidência mostra, e o que não mostra

Um estudo brasileiro mostra o risco da negociação rápida. Day trade é comprar e vender o mesmo ativo no mesmo dia. Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti, da FGV EESP, acompanharam quem entrou no mercado de futuros de ações entre 2013 e 2015.

Entre os que seguiram operando por mais de 300 dias, 97% perderam dinheiro. Os autores também não encontraram sinal de aprendizado com o tempo.

A pesquisa sobre educação financeira em geral é mais animadora. Uma meta-análise de Tim Kaiser, Annamaria Lusardi, Lukas Menkhoff e Carly Urban reuniu 76 experimentos aleatórios, com mais de 160 mil pessoas. Os programas tiveram efeitos médios positivos sobre conhecimento e comportamento financeiro. O resultado se manteve ao descontar o viés de publicação, a tendência de só circularem estudos com resultado positivo.

A crítica é séria. Em 2014, Fernandes, Lynch e Netemeyer publicaram na Management Science uma meta-análise com resultados mais pessimistas. Segundo o artigo, as intervenções explicam cerca de 0,1% da variação dos comportamentos financeiros estudados. Os efeitos somem após cerca de 20 meses e são menores entre pessoas de baixa renda.

A crítica acerta em um ponto. Uma aula isolada não resolve renda baixa nem crédito caro. Juros altos pesam mais do que qualquer cartilha. Mas a conclusão não é abandonar a educação. Ela ensina a ler um contrato, a entender o juro sobre juro e a reconhecer um risco. Esse conhecimento funciona junto com renda e regras de crédito, não no lugar delas.

Investir também tem risco. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Nenhum curso garante retorno.

O que diz o Senado Federal: Segundo a Agência Senado, republicada pelo Tribuna do Sertão, “a educação financeira faz parte das orientações da Base Nacional Comum Curricular desde 2017”. A matéria é de 15 de julho de 2026.

O PL 2.979/2023 ainda depende de nova votação na Câmara. Nas buscas desta apuração, não encontramos registro de votação posterior à aprovação no Senado. Se virar lei, a pergunta será como ela chega à escola pública, com professor preparado, material e tempo de sala. Defendemos que a educação financeira seja tratada como serviço público, ao lado da escola e da saúde, e não como produto de corretora.

Como fizemos: Usamos o Decreto 10.393/2020 (Planalto), a SBT News (dados do Banco Central), a Peic da CNC (divulgada em 6 de agosto de 2026, com dados de julho), o estudo da FGV EESP (2020), o resumo da meta-análise de Kaiser et al. (2022) e o artigo de Fernandes et al. (2014), o boletim da B3 citado pelo Let’s Money, a InfoMoney (26/10/2026) e a Agência Senado (15/07/2026). Todos acessados em 26/10/2026. A proporção de menos de 3% é nossa conta: 5,7 milhões sobre mais de 200 milhões de habitantes. Não consultamos o comunicado original do Banco Central, o boletim da B3 nem o texto completo dos artigos de pesquisa; os números vêm de resumos e reportagens.

Fontes