Pânico na bolsa: o que a história mostra e o que ela não garante
Quedas de 1987, 2008 e 2020 se recuperaram em prazos diferentes, mas as ações da Americanas caíram 93% em um ano e não voltaram ao patamar anterior.

Em 19 de outubro de 1987, o índice S&P 500 caiu 20,47% em um só pregão. O S&P 500 reúne as 500 maiores empresas listadas nos Estados Unidos. Foi a maior queda de um dia da história desse índice, segundo a Wikipedia. O índice só voltou ao patamar anterior em 26 de julho de 1989, cerca de 21 meses depois.
A história oferece exemplos, mas não uma regra. Este texto reúne episódios verificados e pesquisas sobre o tema. Não é recomendação de investimento.
O caso brasileiro
No Brasil, o principal indicador é o Ibovespa, que acompanha as ações mais negociadas na B3, a bolsa de valores de São Paulo. Quando o índice cai muito, a B3 aciona o circuit breaker, um mecanismo que suspende o pregão, ou seja, a negociação do dia.
Em 18 de maio de 2017, dia conhecido como Joesley Day, o Ibovespa fechou em queda de 8,8%, aos 61.597 pontos. Às 10h21, a queda de 10,47% levou à suspensão do pregão por meia hora, segundo o Money Times.
Em março de 2020, o circuit breaker foi acionado várias vezes. No dia 16, o Ibovespa caiu 13,92%, para 71.168 pontos, na quinta vez em seis pregões, segundo A Gazeta. Em 23 de março, o índice chegou a 63.569 pontos, a mínima do ano, segundo o Poder360.
Em 4 de janeiro de 2021, segundo a Revista Oeste, o Ibovespa abriu o ano com recorde histórico.
Quatro episódios, em ordem de data
Quedas e recuperações Queda no período indicado e tempo até voltar ao patamar anterior
| Episódio | Queda | Recuperação |
|---|---|---|
| S&P 500, 19/10/1987 (um dia) | -20,47% | 26/07/1989, cerca de 21 meses depois |
| S&P 500, out/2007 a mar/2009 (retorno total) | -49% | Agosto/2012 (retorno total) |
| Ibovespa, início de 2020 até 23/03/2020 | -45% | Novo recorde em 04/01/2021, cerca de 9 meses após o fundo |
| Americanas (AMER3), 12/01/2023 (um dia) | -77% | Sem recuperação; ações caíram 93% em um ano |
Fontes: Wikipedia, dqydj, Poder360, Revista Oeste e InfoMoney. Cálculos da redação, explicados em Como fizemos.
A queda de 2008 usa retorno total, que soma dividendos à variação de preço. Dividendos são a parte do lucro paga aos acionistas. Nesse critério, o S&P 500 perdeu 49% entre outubro de 2007 e março de 2009 e voltou ao pico em agosto de 2012, segundo o dqydj. Sem dividendos, o recorde de fechamento veio em 28 de março de 2013, segundo a CityNews.
O Nasdaq, índice de empresas de tecnologia, levou ainda mais tempo. Seu recorde de março de 2000 só voltou a ser superado em abril de 2015, cerca de 15 anos depois, segundo a Fortune. A revista nota que esses números não descontam a inflação.
Os estudos sobre os melhores dias
Um estudo de Hendrik Bessembinder, de 2018, analisou ações americanas de 1926 a 2016. Segundo ele, 1.092 empresas explicam toda a riqueza criada acima dos T-bills, os títulos do Tesouro dos EUA usados como referência de juros de curto prazo. Essas empresas são 4,3% das quase 26 mil ações analisadas. Cerca de 58% das ações não superaram esses títulos ao longo da vida.
A J.P. Morgan Asset Management mede o efeito de perder os melhores dias. Segundo seu guia de aposentadoria de 2025, perder os 10 melhores dias dos últimos 20 anos reduziria o retorno anual em quase 50%. Perder os 40 melhores leva a retorno anual negativo.
O que diz a J.P. Morgan Asset Management: Em seu guia de aposentadoria de 2025, a gestora afirma que perder os 10 melhores dias do mercado em 20 anos reduziria o retorno anual em quase 50%. Fonte: nota de divulgação do guia, no site da gestora.
Os melhores dias tendem a cair perto dos piores, segundo a mesma publicação. Isso torna difícil acertar o momento de entrar e sair. Essa leitura é nossa.
O que a história não garante
Os episódios acima terminaram em recuperação, mas nenhum deles garante que o próximo seguirá o mesmo caminho. Os prazos mudaram de um caso para outro, sem calendário fixo.
Pânicos também podem se aprofundar. Em 2008, a queda chegou a 49% com dividendos, e a recuperação levou quase cinco anos.
Nem toda ação volta. A Americanas pediu recuperação judicial em 19 de janeiro de 2023, e a B3 a excluiu de 14 índices, segundo o InfoMoney. Um ano depois, as ações tinham caído 93%.
Ativos podem perder valor. O prazo é o ponto central: quem não precisa do dinheiro no curto prazo tem mais tempo para esperar uma recuperação, se ela vier. Quem precisa do dinheiro logo pode não ter essa folga.
Como fizemos: Usamos a Wikipedia (1987), o dqydj (retorno total do S&P 500, 2007 a 2012), o Money Times (18/05/2017), A Gazeta (16/03/2020), o Poder360 (fechamento de 2020 e mínima de 23/03/2020), a Revista Oeste (início de 2021), o InfoMoney (Americanas, 2023 e 2024), a Fortune (2015), a CityNews (28/03/2013), o guia da J.P. Morgan (2025) e o estudo de Bessembinder (2018), acessados em 26/10/2026. A queda de 45% do Ibovespa até 23/03/2020 é cálculo nosso: 63.569 pontos contra cerca de 115.640 no início do ano, valor obtido do fechamento de 2020 (119.017) com alta de 2,92%. Não localizamos a data em que o Ibovespa voltou ao nível anterior a 18/05/2017, por isso esse caso não entra na tabela. Os dados não mostram o que acontecerá no futuro.
Fontes
- Black Monday (1987) — Wikipedia
- S&P 500 Drawdown History — dqydj
- Money Times — cobertura do fechamento do Ibovespa em 18/05/2017
- Bolsa cai quase 14% após mais um dia de circuit breaker — A Gazeta
- Ibovespa termina o ano aos 119.017 pontos, com alta de 2,92% em 2020 — Poder360
- Ibovespa abre 2021 com recorde histórico — Revista Oeste
- Americanas (AMER3): 7 questões um ano após a fraude bilionária e queda de 93% das ações — InfoMoney
- Nasdaq record close, 15 anos depois do pico de 2000 — Fortune
- Standard & Poor’s 500 index closes at a record high, beating October 2007 mark — CityNews
- Do stocks outperform Treasury bills? — Bessembinder, Blog W. P. Carey (ASU)
- J.P. Morgan Asset Management Releases 2025 Guide to Retirement
- Edifício “Sede” do Banco Central do Brasil em Brasília — Wikimedia Commons, foto do Banco Central do Brasil (CC BY 2.0)
