Perdão de dívidas do MEI: total devido não é o custo para a União

Governo fala em R$ 12,57 bi em dívidas perdoadas e em R$ 3 bi de impacto fiscal em três anos; a diferença está no que cada número mede.

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Palácio do Congresso Nacional, com as duas torres e as cúpulas refletidas no espelho d'água, sob céu nublado.
O Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, em fevereiro de 2023 (imagem de arquivo).Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em outubro, o total das dívidas de MEIs com a União apareceu com três valores diferentes: R$ 12,57 bilhões, R$ 12,6 bilhões e R$ 18,7 bilhões. Ao mesmo tempo, o governo estima que o perdão custe cerca de R$ 3 bilhões em três anos. Os números não medem a mesma coisa.

Para quem não acompanha o tema, o MEI é o Microempreendedor Individual, uma categoria simplificada de pequeno negócio. Quando o MEI deixa de pagar tributos, o débito pode ser inscrito na Dívida Ativa da União. Inscrever é registrar a dívida para cobrança formal, feita pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

Estoque: o total devido

A tabela mostra os valores informados nas reportagens. Eles não usam a mesma base.

Quatro valores para o total de dívidas do MEI com a União Em bilhões de reais, segundo a fonte, em outubro de 2026

Valor Quem informa Base informada
R$ 18,7 bi Agência Brasil, na sanção Débitos inscritos ou não na Dívida Ativa, até 13/10/2026
R$ 12,86 bi Gazeta do Povo, citando o governo Não detalhada na reportagem
R$ 12,6 bi Ministro Paulo Pereira Todas as dívidas acumuladas pelos MEIs, segundo a fala
R$ 12,57 bi Fazenda, via Agência Gov Dívidas inscritas na Dívida Ativa

Fonte: Agência Brasil (21/10/2026), Gazeta do Povo (14/10/2026), Diário do Grande ABC (13/10/2026) e Agência Gov (19/10/2026). Elaboração: redação.

A diferença entre R$ 12,57 bilhões e R$ 18,7 bilhões é grande. As reportagens consultadas não dizem quem fez a conta de R$ 18,7 bilhões. Segundo a Agência Brasil, Lula também citou, na cerimônia, uma dívida ativa de quase R$ 18 bilhões.

Pelo governo, cerca de 86% do total, ou quase R$ 11 bilhões, são de difícil ou impossível recuperação. Isso significa que boa parte do estoque já dificilmente voltaria aos cofres públicos.

Fluxo: quanto a União deixa de receber

O custo fiscal é outra conta. A Agência Câmara informa que o Poder Executivo estima impacto orçamentário para recuperação do crédito de R$ 1,1 bilhão em 2027, R$ 1 bilhão em 2028 e R$ 909 milhões em 2029. Somadas, essas parcelas dão cerca de R$ 3 bilhões em três anos.

Pelo que a reportagem descreve, esse número mede o que a União deixaria de recuperar, e não o total das dívidas. Em nossa conta, ele equivale a cerca de 24% de R$ 12,57 bilhões.

Perdão e teto do MEI: custos estimados pelo Executivo, por ano Em bilhões de reais, de 2027 a 2029

Ano Perdão das dívidas Teto do MEI
2027 1,10 1,57
2028 1,00 3,15
2029 0,91 3,38
Total 3,01 8,10

Fonte: Agência Câmara (14/10/2026), para o perdão; Poder360 (14/10/2026), para o teto. Ambas atribuem as estimativas ao Poder Executivo. Totais: cálculo da redação.

O aumento do teto tem custo estimado maior que o perdão, de R$ 8,1 bilhões em três anos pela soma das estimativas do Executivo. O perdão, nesse cálculo, custa cerca de R$ 3 bilhões.

Por que a LRF importa

A renúncia de receita acontece quando a União abre mão de arrecadar por lei. Anistias e remissões entram nessa categoria. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) exige, nesses casos, estimativa do impacto para o ano em que a regra começa e para os dois seguintes. Também exige que o custo esteja previsto na lei orçamentária ou compensado por outra receita, segundo o artigo 14 da lei.

Nas reportagens consultadas, só o aumento do teto aparece condicionado a isso. Segundo o Poder360, ele depende de o custo constar nas leis orçamentárias de 2027 a 2029. Não encontramos condição equivalente para o perdão.

Quem paga é o orçamento da União. Segundo o Poder360, o ministro Paulo Pereira disse que o incremento fiscal do projeto é suportado pelo orçamento federal.

O que diz o governo: segundo a Agência Gov, com dados da Fazenda, as dívidas dos MEIs somam R$ 12,57 bilhões, e cerca de 3,6 milhões de MEIs podem ser beneficiados. O Poder Executivo estima o impacto de R$ 1,1 bilhão em 2027, segundo a Agência Câmara.

O que fica em aberto

Os números não se contradizem, mas medem coisas diferentes. O total de dívidas mostra o tamanho do estoque. A estimativa de R$ 3 bilhões mostra o que o governo espera deixar de recuperar. A conta final depende de quanto será pago, de quanto está inscrito e do texto publicado.

Sem o texto da lei e sem cálculo independente, os valores ficam como estimativas do governo. Vale acompanhar a publicação no Diário Oficial e o detalhamento da Fazenda.

Como fizemos: Comparamos as cifras da Agência Senado (15/10/2026), da Agência Câmara (14/10/2026), da Agência Gov (19/10/2026), do Poder360 (14 e 15/10/2026), do Diário do Grande ABC (13/10/2026), da Gazeta do Povo (14/10/2026), da Tribuna do Paraná (21/10/2026) e da Agência Brasil (21/10/2026, reproduzida pelo Jornal Aurora), acessadas em 21/10/2026. Somamos as parcelas anuais do Executivo (R$ 3,01 bilhões para o perdão; R$ 8,10 bilhões para o teto) e calculamos a proporção de R$ 3 bilhões sobre R$ 12,57 bilhões. Não consultamos o texto da lei sancionada, e os valores são estimativas oficiais não verificadas de forma independente.

Fontes