Contra o fim do 6x1 no dia 6, a favor no 14: as duas caras de Flávio
Em oito dias, Flávio saiu da defesa da jornada livre ao voto sim em dois turnos da PEC do fim da 6x1, aprovada por 75 a 1 no Senado.

No dia 6 de outubro, Flávio Bolsonaro era contra o fim da escala 6x1. Disse que defendia “a liberdade para o trabalhador escolher a sua própria carga horária”. No dia 14, votou a favor do fim — nos dois turnos, remotamente. A PEC 221/2019 passou por 75 votos a 1, e ele está entre os 75.
Entre uma data e outra: oito dias, o meio do segundo turno e uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O placar é público e não muda — está no painel do Senado. A pergunta desta análise é o que mudou com ele.
Oito dias, quatro posições
Na terça (6), o Senado começou a debater a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que substitui a escala de seis dias de trabalho por um de folga. Flávio era contra e defendia outra pauta: a PEC 12/2026, apresentada em maio pelo coordenador de campanha, senador Rogério Marinho, e assinada por ele. Pela justificativa da proposta, a jornada flexível vem com “a definição proporcional de sua remuneração” — paga-se pelas horas escolhidas, na leitura do Intercept.
Para especialistas ouvidos pelo Intercept, o efeito prático pode ser o oposto do prometido: passar ao trabalhador o risco do negócio e abrir brecha para acordos de redução de jornada. Na quarta (7), Flávio disse que o fim da escala não resolve o problema do país. “Nada disso vai adiantar se estiver todo mundo endividado ou desempregado”, declarou, segundo o Metrópoles.
Na terça (13), após visitar o pai, veio a virada: votaria a favor, desde que o governo bancasse o custo. “Quem vai pagar essa conta vai ser o governo, porque os empresários estão sufocados”, disse, segundo a CNN Brasil. Na quarta (14), o voto: sim nos dois turnos, com o senador em agenda no Rio Grande do Sul. O único voto contrário foi o de Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
A emenda promulgada na sexta (16) garante dois dias de descanso semanal remunerado, sem corte de salário. A transição prevê jornada de 42 horas semanais após 60 dias e de 40 horas depois de mais 12 meses. Flávio não participou das cinco sessões de discussão da proposta, registrou a Exame.
O que sobrou de pé
O voto a favor está no placar, e negá-lo seria inútil. A crítica documentada é outra: a posição durou oito dias, no meio do segundo turno. E o fim da escala veio com a condição de o governo “pagar a conta” dos empregadores — dentro de um programa cuja promessa central é cortar gastos.
Na sexta (16), na sabatina do Jornal Nacional, Flávio prometeu não reverter a mudança: “Não, não vou. Direitos trabalhistas garantidos”. No mesmo dia, porém, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, disse que vai trabalhar em 2027 por uma remuneração por hora. A opção fora apresentada por Rogério Marinho, coordenador da campanha — e a PEC 12/2026, assinada por Flávio, segue no Senado.
No domingo (18), no debate da Band, Flávio explicou a mudança: “Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar”. Saber ouvir é uma virtude. A aritmética, porém, é teimosa: entre os dias 6 e 14, a mesma matéria saiu de “não adianta” para o voto a favor em dois turnos.
Faltam seis dias para o segundo turno, em 25 de outubro. O eleitor que acompanha placares já viu as duas caras. Uma defendia, no dia 6, a liberdade de escolher as horas; a outra votou, no dia 14, o fim da escala em dois turnos. Elas vão à urna juntas.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele diz que mudou de posição porque sabe ouvir — “eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar”, no debate da Band. E prometeu não reverter o fim da 6x1: “Não, não vou. Direitos trabalhistas garantidos”, na sabatina do Jornal Nacional.
Fontes
- Contra 6x1, Flávio Bolsonaro defende regra que tende a reduzir salários — Intercept Brasil
- Flávio sobre Lula e fim da 6x1: “Não adianta com todo mundo desempregado” — Metrópoles
- Flávio diz que votará por fim da 6x1 e que governo deverá “pagar a conta” — CNN Brasil
- Como Flávio Bolsonaro votou sobre o fim da escala 6x1 no Senado — Exame
- Flávio promete que não vai reverter fim da escala 6x1 se for eleito — Metrópoles
- Lula e Flávio Bolsonaro trocam acusações durante debate na Band — Amazonas1
