Reeleição recorde exige voto nominal em todas as votações da Câmara
Com 60,62% de reeleitos, eleitores mantêm deputados cujo voto nem sempre aparece: em 2025, dois terços das votações da Câmara foram simbólicas.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Vigília.

Em 14 de outubro, a Câmara dos Deputados informou que 311 dos 513 deputados foram reeleitos. A taxa de 60,62% é a maior desde a redemocratização, segundo a própria Casa. Os eleitores devolveram a maioria das cadeiras a quem já estava no plenário.
Reeleger alguém é um ato de confiança, e confiança depende de informação. Em boa parte das decisões do plenário, porém, nenhum registro mostra como cada deputado votou. O Jornal Vigília defende que todas as votações do plenário sejam nominais, com o voto de cada parlamentar registrado.
Há dois jeitos de votar no plenário da Câmara. Na votação nominal, o sistema eletrônico registra o voto de cada deputado. Na votação simbólica, o resultado é declarado sem que os votos individuais sejam computados eletronicamente. O guia para jornalistas da própria Câmara diz que a simbólica é “adotada na maioria das propostas”.
Dois terços das votações sem nome
A Folha de S.Paulo obteve os dados pela Lei de Acesso à Informação (LAI), lei que obriga órgãos públicos a responder a pedidos de informação. Os números mostram o tamanho do problema. Em 2025, a Câmara fez 420 votações simbólicas e 215 nominais. Em 2024, foram 369 simbólicas e 150 nominais.
Votações do plenário da Câmara, por tipo, em 2024 e 2025 Número de votações e percentual de simbólicas
| Ano | Simbólicas | Nominais | Simbólicas (%) |
|---|---|---|---|
| 2024 | 369 | 150 | 71% |
| 2025 | 420 | 215 | 66% |
Fonte: Folha de S.Paulo, com dados obtidos pela LAI, reproduzidos pela Folhapress e pelo ICL Notícias em 24/05/2026. Percentuais: cálculo da redação.
Pelas nossas contas, a simbólica foi 66% das votações de 2025 e 71% das de 2024. Em 2025, portanto, quase dois terços das votações não têm registro do voto individual.
A própria Câmara reconhece esse limite. Em seus dados abertos, a Casa informa que “algumas dessas votações são nominais, com o registro dos votos de cada deputado”. Quem quer saber como seu deputado votou depende, portanto, de a votação ter sido nominal. Nas demais, o registro individual simplesmente não existe.
O argumento da agilidade
Quem defende a votação simbólica tem um argumento real. A colunista Marina Atoji, do Poder360, reconhece que o tempo de tramitação é uma das razões para o formato. Em projetos sem divergência, a agilidade pesa a favor da simbólica. Mesmo assim, o argumento não justifica a regra geral, por três razões.
Primeiro, a votação nominal já é eletrônica. A Câmara explica que ela “é feita pelo sistema eletrônico de votos”. Se o sistema já registra cada voto, a diferença está na decisão de registrar, não na capacidade técnica.
Segundo, a escolha hoje cabe a uma pessoa. Segundo a Folha, “quem decide se a votação será simbólica é o presidente da Casa”. Um pedido de verificação exige o apoio de seis centésimos dos deputados, ou seja, 6%. Pelas nossas contas, são 31 parlamentares. A verificação, porém, vem depois da proclamação do resultado.
Terceiro, o voto nominal também pode ser decidido pelo Plenário. O guia da Câmara prevê essa decisão “mediante requerimento de qualquer deputado para votar uma proposta nominalmente”. A regra existe. O que falta é usá-la como padrão.
O que diz a Câmara dos Deputados: o guia para jornalistas da Casa afirma que a votação simbólica é “adotada na maioria das propostas”. Segundo a Folhapress, a assessoria do presidente Hugo Motta não respondeu às tentativas de contato da reportagem. Não enviamos perguntas à Câmara para este texto.
Se um projeto tem acordo, o voto nominal mostra o acordo. Ele não atrapalha o consenso. Apenas deixa registrado quem apoiou.
Um Congresso forte presta contas. Os deputados falam em nome de milhões de eleitores, e esses eleitores precisam ver o que foi decidido em seu nome. Com 60,62% de reeleitos, essa cobrança deveria crescer, não diminuir. As regras de votação estão no Regimento Interno, o regulamento da própria Câmara, e a Casa pode alterá-las.
Como fizemos: Usamos os totais de votações simbólicas e nominais de 2024 e 2025, obtidos pela Folha por meio da LAI e publicados em 24/05/2026, e o número de reeleitos (311) informado pela Agência Câmara em 14/10/2026. Calculamos os percentuais de simbólicas (simbólicas dividido pelo total de simbólicas e nominais) e o número de deputados equivalente a 6% de 513 (cerca de 31). Acessamos as fontes em 22/10/2026. O levantamento cobre o plenário de janeiro de 2015 a novembro de 2025. Não tivemos acesso à base de dados da LAI, e os números não foram verificados de forma independente.
Fontes
- Percentual de deputados federais reeleitos chega a 60,62%, o maior desde a redemocratização do país — Agência Câmara (acesso em 22/10/2026)
- Maioria das votações no Congresso é feita de maneira simbólica e sem transparência — Folhapress, via ICL Notícias (acesso em 22/10/2026)
- Votação — Guia para jornalistas, Câmara dos Deputados (acesso em 22/10/2026)
- Dados abertos da Câmara dos Deputados (acesso em 22/10/2026)
- Verificação de Votação — Glossário de Termos Legislativos, Congresso Nacional (acesso em 22/10/2026)
- Votações simbólicas são fruto de processo feito às escuras — Marina Atoji, Poder360 (acesso em 22/10/2026)
- Deputado Adolfo Viana 1 — Câmara dos Deputados, Wikimedia Commons (acesso em 22/10/2026)
