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Reeleição recorde exige voto nominal em todas as votações da Câmara

Com 60,62% de reeleitos, eleitores mantêm deputados cujo voto nem sempre aparece: em 2025, dois terços das votações da Câmara foram simbólicas.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Vigília.

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Deputado de terno escuro fala ao microfone no plenário da Câmara dos Deputados, cercado de pessoas em pé.
Deputado fala ao microfone no plenário da Câmara dos Deputados durante sessão de votação de propostas, em 25 de abril de 2023 (imagem de arquivo).Foto: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Em 14 de outubro, a Câmara dos Deputados informou que 311 dos 513 deputados foram reeleitos. A taxa de 60,62% é a maior desde a redemocratização, segundo a própria Casa. Os eleitores devolveram a maioria das cadeiras a quem já estava no plenário.

Reeleger alguém é um ato de confiança, e confiança depende de informação. Em boa parte das decisões do plenário, porém, nenhum registro mostra como cada deputado votou. O Jornal Vigília defende que todas as votações do plenário sejam nominais, com o voto de cada parlamentar registrado.

Há dois jeitos de votar no plenário da Câmara. Na votação nominal, o sistema eletrônico registra o voto de cada deputado. Na votação simbólica, o resultado é declarado sem que os votos individuais sejam computados eletronicamente. O guia para jornalistas da própria Câmara diz que a simbólica é “adotada na maioria das propostas”.

Dois terços das votações sem nome

A Folha de S.Paulo obteve os dados pela Lei de Acesso à Informação (LAI), lei que obriga órgãos públicos a responder a pedidos de informação. Os números mostram o tamanho do problema. Em 2025, a Câmara fez 420 votações simbólicas e 215 nominais. Em 2024, foram 369 simbólicas e 150 nominais.

Votações do plenário da Câmara, por tipo, em 2024 e 2025 Número de votações e percentual de simbólicas

Ano Simbólicas Nominais Simbólicas (%)
2024 369 150 71%
2025 420 215 66%

Fonte: Folha de S.Paulo, com dados obtidos pela LAI, reproduzidos pela Folhapress e pelo ICL Notícias em 24/05/2026. Percentuais: cálculo da redação.

Pelas nossas contas, a simbólica foi 66% das votações de 2025 e 71% das de 2024. Em 2025, portanto, quase dois terços das votações não têm registro do voto individual.

A própria Câmara reconhece esse limite. Em seus dados abertos, a Casa informa que “algumas dessas votações são nominais, com o registro dos votos de cada deputado”. Quem quer saber como seu deputado votou depende, portanto, de a votação ter sido nominal. Nas demais, o registro individual simplesmente não existe.

O argumento da agilidade

Quem defende a votação simbólica tem um argumento real. A colunista Marina Atoji, do Poder360, reconhece que o tempo de tramitação é uma das razões para o formato. Em projetos sem divergência, a agilidade pesa a favor da simbólica. Mesmo assim, o argumento não justifica a regra geral, por três razões.

Primeiro, a votação nominal já é eletrônica. A Câmara explica que ela “é feita pelo sistema eletrônico de votos”. Se o sistema já registra cada voto, a diferença está na decisão de registrar, não na capacidade técnica.

Segundo, a escolha hoje cabe a uma pessoa. Segundo a Folha, “quem decide se a votação será simbólica é o presidente da Casa”. Um pedido de verificação exige o apoio de seis centésimos dos deputados, ou seja, 6%. Pelas nossas contas, são 31 parlamentares. A verificação, porém, vem depois da proclamação do resultado.

Terceiro, o voto nominal também pode ser decidido pelo Plenário. O guia da Câmara prevê essa decisão “mediante requerimento de qualquer deputado para votar uma proposta nominalmente”. A regra existe. O que falta é usá-la como padrão.

O que diz a Câmara dos Deputados: o guia para jornalistas da Casa afirma que a votação simbólica é “adotada na maioria das propostas”. Segundo a Folhapress, a assessoria do presidente Hugo Motta não respondeu às tentativas de contato da reportagem. Não enviamos perguntas à Câmara para este texto.

Se um projeto tem acordo, o voto nominal mostra o acordo. Ele não atrapalha o consenso. Apenas deixa registrado quem apoiou.

Um Congresso forte presta contas. Os deputados falam em nome de milhões de eleitores, e esses eleitores precisam ver o que foi decidido em seu nome. Com 60,62% de reeleitos, essa cobrança deveria crescer, não diminuir. As regras de votação estão no Regimento Interno, o regulamento da própria Câmara, e a Casa pode alterá-las.

Como fizemos: Usamos os totais de votações simbólicas e nominais de 2024 e 2025, obtidos pela Folha por meio da LAI e publicados em 24/05/2026, e o número de reeleitos (311) informado pela Agência Câmara em 14/10/2026. Calculamos os percentuais de simbólicas (simbólicas dividido pelo total de simbólicas e nominais) e o número de deputados equivalente a 6% de 513 (cerca de 31). Acessamos as fontes em 22/10/2026. O levantamento cobre o plenário de janeiro de 2015 a novembro de 2025. Não tivemos acesso à base de dados da LAI, e os números não foram verificados de forma independente.

Fontes