Senadora diz que tarifaço dos EUA afeta soberania nacional na CMA

Na audiência da CMA do Senado de quinta-feira (22), 47,3% das exportações do Brasil aos EUA pagam tarifas extras de até 37,5%.

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Senador Otto Alencar, de terno escuro, fala ao microfone na mesa da Comissão de Meio Ambiente do Senado, com a bandeira do Brasil ao fundo.
Senador Otto Alencar, então presidente da CMA, em reunião da comissão em 2016 (imagem de arquivo).Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na quinta-feira (22), a Comissão de Meio Ambiente do Senado (CMA) debateu o “tarifaço” dos Estados Unidos. O nome se refere às tarifas extras que o governo americano impõe a produtos de outros países. A senadora Leany Lemos (PSB-DF), que presidiu a reunião, disse que o tema é de soberania.

O debate também tratou das terras-raras, grupo de elementos químicos usados em componentes de data centers e drones militares. Os convidados deram respostas diferentes sobre a ameaça do tarifaço e as chances que as terras-raras oferecem.

Quem paga a conta do tarifaço

Desde março de 2025, os Estados Unidos anunciam tarifas sucessivas sobre produtos estrangeiros. Hoje, quase metade das exportações brasileiras para o país (47,3%) está sujeita a taxas extras de até 37,5%. Essas taxas não existiam em 2024. Segundo o governo brasileiro, o valor estimado dessas exportações é de US$ 19,1 bilhões.

Leany Lemos afirmou que o governo americano passou a tratar sua política comercial como “arma para atingir os seus interesses”. Ela disse que os EUA veem o Brasil como seu “quintal”. “Estamos falando de soberania nacional e do direito e do dever de decidirmos livremente os nossos caminhos e o destino das nossas riquezas”, criticou a senadora.

O pesquisador Renato Baumann, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Universidade de Brasília (UnB), discordou da justificativa americana. Ele chamou a medida de “estratégia eleitoral, ideológica e comportamental” que “não se sustenta”. Segundo ele, a tese dos EUA é que países que exportam mais aos EUA do que importam prejudicam a indústria local. Esse não seria o caso do Brasil, que tem déficit comercial com os EUA desde 2008.

Terras-raras: riscos e oportunidades

A doutora em ciência política Luíza Gimenez Cerioli lembrou que a China “dominou grande parte do processamento desses minerais nas últimas décadas”. Por isso, outros países, como os EUA, passaram a ver essa dependência como uma vulnerabilidade estratégica. Ela também apontou os custos. Segundo a pesquisadora, o processamento “exige bastante energia e bastante água” e “é algo poluente”.

Para Cerioli, o ganho do Brasil depende de transformar o recurso em “capacidade industrial”, e não apenas de tê-lo no subsolo. O professor da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Landgraf defendeu uma fábrica de ímãs no país, em vez de vender o material bruto. “São poucas as fábricas de ímãs. Não chegam a 10 fora da China”, disse. Ele estima cerca de 10 anos para o negócio dar lucro.

Nem todos os convidados viram a soberania como caminho isolado. Landgraf disse que são indispensáveis políticas nacionais para o setor e também investimentos estrangeiros. Cerioli afirmou que a industrialização exigiria “parcerias internacionais sólidas”. Landgraf citou a Política Nacional de Minerais Críticos, cuja lei foi sancionada no mês passado, segundo a Agência Senado.

O contraponto americano

André Rodolfo de Lima, representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, afirmou que a tarifa adicional de 25% foi baseada em uma “grande falácia”. A medida atinge uma série de produtos brasileiros. Segundo a matéria, os EUA argumentam que o Brasil falhou na fiscalização do desmatamento, o que teria favorecido o agronegócio nacional. Lima citou queda de 75,4% no desmatamento da Floresta Amazônica entre 2022 e 2026. Ele atribuiu o resultado à adesão de 80 municípios a um programa da União, no âmbito do Fundo Amazônia.

A matéria não informa o que a CMA pode decidir sobre o tema. Também não menciona votação ou projeto de lei ligado à audiência. O glossário do Senado diz que as comissões realizam audiências públicas e emitem pareceres sobre propostas legislativas.

O que diz o governo dos Estados Unidos: segundo a Agência Senado, o governo americano justifica a tarifa adicional com a alegação de falhas brasileiras na fiscalização do desmatamento. Esta matéria não incluiu contato com o governo dos EUA. A posição citada vem do relato da audiência.

O que vem a seguir

A audiência não trouxe encaminhamentos, segundo a matéria. A íntegra do vídeo está no portal e-Cidadania do Senado. Os convidados apontaram riscos e oportunidades, mas caminhos diferentes para o Brasil.

Como fizemos: Usamos o relato da Agência Senado sobre a audiência de 22/10/2026 e a matéria em áudio do mesmo dia, acessados em 23/10/2026. Os percentuais e valores são os informados na audiência e pelo governo brasileiro, sem verificação independente. Não tivemos acesso à íntegra do vídeo.

Fontes