OpiniãoArtigo de opinião

Tarifa zero no fim de semana é política para quem trabalha

A PEC de Lula custeia o transporte gratuito aos fins de semana com emendas, mas o mérito da medida merece debate antes da fonte.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Vigília.

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Ônibus articulado azul e prata em um terminal de São Paulo, sob uma cobertura metálica curva, com outro ônibus ao fundo.
Ônibus articulado em terminal de ônibus de São Paulo, em foto de 2014 (imagem de arquivo).Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Na quarta-feira (21), o governo enviou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para tornar gratuito o transporte coletivo aos fins de semana e feriados. Segundo a Agência Brasil, a conta seria de cerca de R$ 12 bilhões em 2027, pagos com emendas parlamentares.

Emenda parlamentar é a verba que deputados e senadores indicam para obras e serviços em suas bases. Pela proposta, parte dela deixaria de seguir essas indicações e passaria a pagar o ônibus.

Este texto defende uma posição. O transporte gratuito nos fins de semana é uma política de serviço público e de trabalho. O Congresso deve debatê-la pelo mérito, e não apenas pela fonte do dinheiro.

Um serviço para quem trabalha

Lula disse: “É uma obsessão de muita gente que levanta às 4h30 para trabalhar”. A frase resume o problema. Para quem trabalha no sábado ou no domingo, a passagem é um custo do emprego, e pesa no orçamento da casa.

O transporte liga a pessoa ao trabalho, à escola e ao posto de saúde. Sem ele, os outros serviços públicos ficam distantes de quem mora longe do centro. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) defende a mesma ideia de acesso.

O Brasil construiu serviços públicos que são conquistas nacionais, como o Sistema Único de Saúde (SUS) e a escola pública. O transporte faz parte dessa rede. Uma consulta ou uma aula só alcança quem depende do ônibus quando a passagem não bloqueia o caminho.

A conta que o Congresso precisa fazer

A parte mais difícil é a conta. O projeto de Orçamento de 2027 prevê R$ 44,8 bilhões em emendas de execução obrigatória, ou seja, pagas pelo governo por obrigação. A PEC reserva, no mínimo, 26,8% desse total, cerca de R$ 12 bilhões. Algumas reportagens iniciais falaram em R$ 11,2 bilhões, valor que a própria Agência Brasil corrigiu.

A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) calcula um número maior. Em 16 de outubro, antes da PEC, a entidade estimou em R$ 20,8 bilhões por ano o custo de tarifa zero aos sábados, domingos e feriados. A conta parte do gasto atual de R$ 17,3 bilhões e prevê 20% mais passageiros.

O cálculo da NTU inclui ônibus, trens e metrôs, e a PEC fala em transporte coletivo. Os escopos não são iguais. Ainda assim, se a estimativa estiver certa, R$ 12 bilhões cobririam cerca de 58% do custo, conta da redação.

O próprio presidente da NTU, Francisco Christovam, aponta o problema central: “O grande desafio é construir um modelo de financiamento que permita reduzir o peso da passagem no orçamento das famílias”. Ou seja, a entidade também quer um modelo de financiamento para a gratuidade.

O argumento contrário tem base. Segundo o TMC, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), apoia a gratuidade aos fins de semana, mas se opõe a usar emendas como instrumento de financiamento. O PlatôBR relata que ele quer preservar a autonomia dos deputados para indicar suas emendas.

O líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta, disse ao PlatôBR: “Não tratamos nada ainda. Isso a gente vê depois.” A fonte do dinheiro, portanto, ainda está em aberto.

O calendário também pesa. A PEC foi enviada quatro dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Quem enxerga uso eleitoral na data tem razão em cobrar explicações.

Segundo o TMC, a tramitação só deve começar depois da eleição. Para ser aprovada, a PEC precisa de três quintos dos votos em cada Casa, em dois turnos. Na conta da redação, são 308 deputados e 49 senadores.

O governo afirma que a medida não aumenta a despesa primária, isto é, os gastos sem os juros da dívida. Essa afirmação precisa ser checada no texto da PEC, que este texto não leu.

A defesa aqui é direta. O transporte gratuito nos fins de semana é política de quem trabalha, e merece votação pelo mérito. A fonte do dinheiro é a parte mais difícil, mas não deve substituir a discussão sobre quem se beneficia.

Se o uso de emendas não prosperar, há caminhos apontados pelos próprios envolvidos. Segundo o PlatôBR, Motta defende que o governo busque outra forma de financiamento, e a NTU pede um modelo de financiamento que reduza o peso da passagem. A decisão cabe ao Congresso, que ainda precisa votar o Orçamento de 2027.

O que diz o governo: a Secom, em nota, afirma que a proposta busca “ampliar o acesso da população ao trabalho, aos serviços públicos, à cultura e ao lazer”. Segundo a Agência Brasil, a justificativa diz que a medida “não implica aumento da despesa primária nem afeta a meta de resultado primário”. Motta não tem declaração direta nas reportagens consultadas, e suas posições são relatadas pelo TMC e pelo PlatôBR.

Como fizemos: Usamos a Agência Brasil (21/10/2026), o Diário do Transporte com os dados da NTU (16/10/2026), o TMC e o PlatôBR (22/10/2026) e o Congresso em Foco sobre a data do segundo turno, acessados em 22/10/2026. Não lemos o texto da PEC nem o projeto de Orçamento de 2027, então os valores são os divulgados pela Agência Brasil. Cálculos da redação: 26,8% de R$ 44,8 bilhões (cerca de R$ 12 bilhões); R$ 12 bilhões divididos por R$ 20,8 bilhões (cerca de 58%); três quintos de 513 deputados (308) e de 81 senadores (49). Os números do governo e da NTU têm escopos diferentes e não devem ser somados.

Fontes