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O Orçamento não pode ser votado às pressas no fim do ano

A Constituição separa a votação da LDO, em julho, da do Orçamento, em dezembro; juntar as duas no fim do ano tira do eleitor a chance de ver as escolhas.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Vigília.

Ilustração provisória: losangos sobrepostos em dourado, azul e branco sobre fundo azul-anil.
Arte provisória da seção de Opinião; será substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

O Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), parte da Constituição, fixa duas datas para o dinheiro público. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deve ser devolvida para sanção até o fim do primeiro semestre legislativo, em 17 de julho. A Lei Orçamentária Anual (LOA) deve sair até o fim da sessão legislativa, em 22 de dezembro.

O intervalo entre as duas datas não é detalhe. A LDO define as regras e as prioridades do ano seguinte. A LOA distribui o dinheiro entre programas, obras e políticas. A ordem existe para que primeiro se discutam os critérios e, só depois, os valores.

Um calendário que escorrega

Nos últimos anos, as duas votações têm escorregado para o fim do ano, ou além dele. A LDO de 2026 só foi aprovada em 4 de dezembro de 2025, segundo a Agência Senado. Deveria ter sido aprovada em julho.

O Orçamento de 2025 foi aprovado em 20 de março de 2025, com o ano já em curso. Segundo a Agência Senado, a votação saiu três meses depois do prazo.

Este ano repete o roteiro. O prazo da LDO de 2027 terminou em 17 de julho, e a ficha do projeto, o PLN 2/2026, não registra votação. Segundo a Agência Senado, ela deve ser analisada quase junto com o Orçamento, enviado pelo governo em 31 de agosto.

O que o eleitor perde

A Constituição chega a dizer que o Congresso não pode interromper os trabalhos de julho sem aprovar a LDO (artigo 57). A regra mostra a intenção: a lei de diretrizes deveria orientar a montagem do Orçamento, e não chegar ao mesmo tempo que ele.

Quando as duas leis são votadas em sequência, em poucas semanas, o debate público encolhe. Relatórios extensos, com muitas mudanças em relação ao projeto do governo, chegam às sessões conjuntas de deputados e senadores. Jornalistas, pesquisadores e eleitores não têm tempo de comparar o que entrou e o que saiu.

É no Orçamento que se decide quanto vai para a saúde, para a estrada, para as emendas de cada parlamentar. São escolhas com nome e sobrenome. Votadas às pressas, passam sem que o eleitor consiga ligar cada decisão a quem a tomou.

Defendo que o Congresso trate o calendário da Constituição como obrigação, e não como referência. Cada atraso deveria vir com explicação pública e nova data, dadas pela Comissão Mista de Orçamento (CMO). E o relatório final deveria ser publicado dias antes do voto, com um resumo das mudanças em linguagem simples.

O que diz o Congresso: Parlamentares lembram que o Orçamento é um projeto complexo, que exige negociação entre governo, bancadas e relatores. Este ano, a CMO só foi instalada em 16 de junho, segundo a Agência Senado, e a Agência Câmara informou que o calendário de sessões foi ajustado em função do período eleitoral.

As eleições deste domingo (4) explicam parte do atraso de 2026. Não explicam o de 2025, ano sem eleição, quando a LDO só foi votada em dezembro. Até 22 de dezembro, o Congresso precisa aprovar o Orçamento de 2027, e ainda falta a LDO. O eleitor merece mais do que alguns dias para saber o que está em jogo.

Fontes